Quilombo centenário no Piauí é ‘esquecido’ pela maior usina eólica da América do Sul

UMA “ZUADA QUE NOSSINHORA”. É assim que Firmino Gomes dos Anjos, morador do quilombo Lagoa, em Lagoa do Barro, interior do Piauí, descreve o convívio diário com duas torres eólicas no território da comunidade. As turbinas são da empresa Enel Green Power e fazem parte do Complexo Eólico Lagoa dos Ventos, instalado entre os municípios de Lagoa do Barro do Piauí, Queimada Nova e Dom Inocêncio. 

Faz oito anos que a empresa iniciou a construção dos aerogeradores. Na época, as pás eram chamadas de “cataventos” e os moradores sabiam pouco ou nada do assunto. O que veio depois foi a implantação da maior usina eólica da América do Sul, que opera dentro de uma comunidade quilombola centenária jamais consultada por empresas e órgãos públicos — e que coloca em xeque o conceito de “transição energética justa”.

O megaempreendimento de 280 mil hectares entrou em operação em 2021, com 716 MW (megawatts) de potência instalada na primeira fase (Lagoa dos Ventos I e II). Na fase de expansão (Lagoa dos Ventos III), foram adicionados mais 396 MW — tornando o complexo o principal projeto eólico da Enel no mundo.

São ao todo 230 turbinas, das quais duas no quilombo Lagoa. As conversas para erguer as estruturas, porém, foram feitas apenas com os dois moradores que receberam as torres em seus terrenos, e trataram somente do arrendamento das áreas.

Essas informações constam do relatório de identificação do território, produzido pelo Interpi (Instituto de Regularização Fundiária e Patrimônio Imobiliário do Piauí) e publicado em 2024. O órgão estadual é o responsável por regularizar o quilombo, pois parte da área tradicional corresponde a terras públicas estaduais — agora ocupadas pela Enel. 

A Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), ratificada pelo Brasil em 2004, determina que comunidades tradicionais sejam devidamente comunicadas e ouvidas a respeito de atividades econômicas em seus territórios. A consulta deve ocorrer antes da instalação do empreendimento, o que não aconteceu com o quilombo Lagoa.

Cinco anos após o início das operações, os quilombolas relatam danos em seu modo de vida e perdas econômicas, como rachaduras em algumas casas. “[Eles] fizeram remendos, mas em alguns casos era para ter derrubado e levantado de novo”, comenta Firmino dos Anjos. 

Os moradores também citam episódios de enjoo, devido ao barulho e ao efeito de luz e sombra, além do incômodo com o frequente ligar e desligar das torres. El

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