Pressão do MST sobre ferrovia faz Vale financiar terras para reforma agrária

PARAUAPEBAS (PA) – O maior acampamento de trabalhadores rurais sem terra do Brasil está montado a menos de 3 km da Estrada de Ferro Carajás, operada pela Vale. Com mais de 5 mil famílias, o Terra e Liberdade pressiona um dos principais corredores logísticos do país,  que transporta grãos, celulose e principalmente minério de ferro do Sudeste do Pará até o porto de São Luís (MA).

Nos últimos anos, famílias ligadas ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) bloquearam diversas vezes a linha férrea para abrir negociação com a mineradora e com o governo federal. 

A estratégia surtiu efeito: por meio de um acordo de cooperação técnica, a Vale vem repassando recursos para que o Incra, órgão federal responsável pela reforma agrária, compre áreas na região e faça o assentamento de famílias sem terra. “O mais eficaz é parar a ferrovia”, resume o dirigente estadual do movimento, Pablo Neri. O cálculo é simples: interromper o fluxo provoca prejuízo imediato para a mineradora e força a negociação.Na análise de Neri, a expansão de grandes empreendimentos de mineração na região de Carajás atrai trabalhadores que acabam não sendo absorvidos pelo mercado local e passam a integrar ocupações por terra.A pressão do MST levou à abertura de uma frente de negociação. O diretor de Relações Institucionais da Vale, Kennedy Alencar, assumiu o cargo em 2 de dezembro de 2024 e, três dias depois, já estava em Carajás para tratar justamente da desinterdição da ferrovia, então bloqueada por acampados do Terra e Liberdade.

Alencar disse em entrevista à Repórter Brasil que, ao chegar à região, encontrou uma agenda de negociação já em curso entre a empresa e o MST, envolvendo áreas ocupadas havia anos. 

A partir daí, segundo ele, a Vale passou a estruturar, em conjunto como Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), um arranjo para lidar com os conflitos fundiários na região.

Acampamento Terra e Liberdade, do MST, foi erguido em novembro de 2023 em Parauapebas, no Pará; abriga hoje mais de 5 mil pessoas (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Segundo Alencar, o modelo foi formalizado em um ACT (Acordo de Cooperação Técnica) entre a Vale e o órgão federal. “Nós assinamos um ACT para fazer um encontro de contas sobre as terras e há um repasse nosso de 33 mil hectares para efeito de reforma agrária”, afirmou.

Um dos exemplos citados por Alencar é o da fazenda Aquidauana, onde está localizado o acampamento Terra e Liberdad

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