DE CANAÃ DOS CARAJÁS (PA) – Os dias se arrastam para José Carlos Agarito Moreira, de 48 anos. Sentado no terreiro da pequena casa onde vive, ele passa a maior parte do tempo com os pés para cima. “Fico esperando anoitecer para ir deitar”, diz, enquanto tenta esquecer a dor que atravessa a cabeça e, de vez em quando, escorre em pus pela nuca e pelo ouvido, impedindo que ele trabalhe.
“Acho que é o zinabre da bala que ficou lá dentro”, afirma, apontando para a prótese que carrega no lugar do olho direito, depois de ser atingido por um tiro disparado por um policial militar. Ao lado de um papagaio, ele observa o pequeno movimento da rua em um bairro de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, e quase não se levanta. A rotina só muda três vezes por semana, quando sai para fazer hemodiálise.
Há três décadas, Zé Carlos foi baleado na Curva do S, em Eldorado do Carajás, o maior massacre da história recente do campo brasileiro. Em 17 de abril de 1996, policiais militares abriram fogo contra um grupo do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que bloqueavam a rodovia PA-150, durante um protesto em defesa da reforma agrária.
Na hora, 19 pessoas foram assassinadas e dezenas ficaram feridas. Outros dois trabalhadores morreram dias depois, vítimas dos disparos. Na Justiça, apenas os dois comandantes da operação foram condenados por homicídio.
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Na semana que marca os 30 anos do massacre, o MST organiza uma marcha de cinco dias entre Curionópolis e Eldorado do Carajás, com atos políticos, debates e atividades culturais ao longo do percurso. A mobilização termina na Curva do S, onde será realizado um ato em memória das vítimas e em defesa da reforma agrária.
Na época do massacre, Zé Carlos tinha 18 anos e havia chegado poucos dias antes ao acampamento onde estavam seus pais, na fazenda Macaxeira. A família migrou do Maranhão para o sudeste do Pará quando ele ainda era crian
