Líder sem-terra ameaçado vive sob escolta em disputa por fazenda no Pará

BREU BRANCO (PA) — Para visitar o acampamento de trabalhadores rurais sem-terra que preside, Ivan da Silva Assunção precisa avisar a polícia e esperar escolta. Só depois ele vai até os barracos de lona onde famílias aguardam há anos uma decisão sobre a área conhecida como Fazenda Tigre. “Eu me sinto que nem um prisioneiro. Eu sou prisioneiro dentro da minha própria residência”, afirma. 

Assunção preside a Amocot (Associação dos Moradores da Comunidade Tigre) e conta que entrou em programa de proteção depois de sofrer ameaças no conflito pela terra. “Não posso vir aqui no acampamento fazer uma reunião sem ser escoltado pela polícia”, diz.A disputa pela fazenda é alvo de uma ação civil pública movida pelo estado do Pará na Vara Agrária de Castanhal que pede o cancelamento da matrícula da Fazenda Tigre e indenização por suposto apossamento ilegal de terra pública. A área está localizada na margem esquerda do rio Moju, no sudeste do Pará, nos municípios de Breu Branco e Goianésia do Pará. 

Registrada como Fazenda São Francisco, a área teve a matrícula bloqueada por decisão liminar em 2023. O pedido de cancelamento definitivo do título, porém, ainda aguarda sentença. Para as famílias do Acampamento Tigre, a espera pela decisão se mistura à falta de trabalho, comida e segurança.“A gente quer mostrar o nosso valor, o valor dos trabalhadores que precisam de um pedaço de terra para trabalhar e criar os seus filhos”, explica Assunção.Réus na Justiça, os fazendeiros que alegam serem os donos da área afirmam que a fazenda não se sobrepõe a terras públicas. Na contestação, Paulo César Teófilo, Fernando da Silva Teófilo, Rafael da Silva Teófilo e Solange Pereira da Silva Teófilo sustentam que a propriedade tem origem em uma carta de sesmaria da antiga Fazenda São Paulo das Cachoeiras. 

Reunião de moradores no Acampamento Tigre, onde famílias se organizam em barracos de lona, madeira e palha enquanto vivem sem saneamento básico e água encanada (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Os réus também afirmam que a fazenda foi adquirida de forma regular e passou por registros, averbações e georreferenciamentos. A área teria sido comprada pela Reflorestadora Tigre Indústria e Comércio em 2005. A Repórter Brasil tentou contato por e-mail e ligação telefônica com a defesa dos réus, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. 

A Amocot pediu para entrar no processo ao lado do estado. A associação representa mais de 300 famílias

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