Leias as respostas completas de Cristiano Oliveira e Eduardo Gaban para a reportagem “Estudo usado por ruralistas no STF contra moratória da soja é contestado por ambientalistas”
Eduardo Gaban e Cristiano Oliveira
Agradecemos o interesse pelo nosso trabalho e a oportunidade de esclarecer as dúvidas levantadas pela reportagem. A Moratória da Soja é um tema de grande relevância para o debate público brasileiro, e acreditamos que a produção científica independente tem um papel fundamental nessa discussão — especialmente em um momento em que o tema é objeto de análise tanto no STF quanto no CADE. Respondemos a cada uma das perguntas com a mesma seriedade e transparência que orientaram a elaboração do estudo, e esperamos que as respostas contribuam para uma cobertura informada e equilibrada.
O estudo utiliza o desmatamento agregado como variável principal. Segundo os especialistas, há o entendimento na literatura científica de que a variável de resultado deve estar diretamente ligada ao mecanismo da política, sob risco de diluição do efeito estimado. Considerando que a moratória atua sobre a conversão direta para soja, como os autores justificam o uso de desmatamento total?
É uma pergunta bastante pertinente, pois ela toca num ponto central do nosso trabalho. A escolha do desmatamento total foi intencional e reflete exatamente o que queremos medir: se a Amazônia ficou mais preservada.
Pense assim: imagine que uma cidade proíbe que caminhões despejem lixo numa rua específica. Se medirmos apenas o lixo naquela rua, pode parecer um sucesso. Mas se os caminhões simplesmente mudarem para a rua do lado, o bairro continua sujo. A política falhou no que realmente importa.
Com a Moratória da Soja acontece algo parecido. Ela proíbe que os produtores comprem soja plantada diretamente sobre áreas desmatadas. Mas os dados do próprio GTS (o grupo que monitora a moratória) mostram que essa conversão direta de floresta para soja representa apenas 2,4% do desmatamento total na Amazônia. Os outros 97,6% ocorrem por outras razões, principalmente pela pecuária, que está fora do alcance da moratória.
Se medíssemos apenas aqueles 2,4%, poderíamos concluir que a política funcionou, mas estaríamos ignorando o que acontece na floresta como um todo. Nossa pergunta de pesquisa é mais ambiciosa e mais honesta: a Amazônia foi efetivamente protegida? Para isso, só o desmatamento total responde.
Vale destacar ainda que não estamos inventando nada novo.