Entre barragens e novas minas, quilombos do Pará vivem sob pressão da bauxita

DE ORIXIMINÁ E SÃO PAULO — Maior produtora nacional de bauxita, a Mineração Rio do Norte (MRN) é a empresa com mais requerimentos de minerais críticos que afetam territórios quilombolas na Amazônia. A bauxita é a matéria-prima do alumínio, metal estratégico para as indústrias bélica e de tecnologia.

A companhia detém ao menos 37 processos minerários sobrepostos ou a 10 km de três terras quilombolas: Alto Trombetas I, Alto Trombetas II e Boa Vista, em Oriximiná, no oeste do Pará. Do total, 36 requerimentos já têm a lavra concedida.

Os achados fazem parte do Observatório da Transição Energética, plataforma de dados que integra diferentes bases públicas para mostrar os impactos socioambientais dos projetos ligados à transição energética no Brasil. 

A ferramenta foi desenvolvida por jornalistas da Repórter Brasil e pesquisadores do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) e do PoEMAS (Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade, de diferentes universidades). A iniciativa tem colaboração da Rainforest Investigations Network (Pulitzer Center) e apoio da Fundação Ford.

Na Amazônia Legal, a plataforma identificou 7.233 requerimentos de minerais críticos — como bauxita, lítio, cobre, níquel, estanho, manganês e terras raras — registrados na base da ANM (Agência Nacional de Mineração), desde 1953. Do total de processos, 128 avançam sobre territórios quilombolas, dos quais 37 pertencem à Mineração Rio do Norte.

Os chamados minerais críticos — ou minerais para eletrificação — são essenciais para a transição energética e a indústria de defesa. Esses elementos são aplicados em baterias, turbinas eólicas, painéis solares, ligas metálicas, carros elétricos e equipamentos militares.

As operações da MRN são uma das mais antigas do setor mineral na Amazônia. A exploração teve início na década de 1970, quando inúmeras comunidades quilombolas e ribeirinhas já viviam no local, com direitos não reconhecidos na época. 

Questionado pela Repórter Brasil, a MRN afirma, em nota, que suas operações geram milhares de empregos ao longo da cadeia do alumínio no país, centenas de milhares de reais em impostos e “projetos socioambientais essenciais ao desenvolvimento das comunidades em sua área de influência”.

O posicionamento informa ainda que as comunidades quilombolas vivem em um ”contexto marcado pela invisibilidade histórica e omissões recorrentes do Estado”, e que a empresa exerce “papel central e estruturante

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