Medo de contaminação de rio por mineradora volta a assombrar indígenas no AM, 40 anos após primeiras denúncias

DA TERRA INDÍGENA WAIMIRI ATROARI (AM) — Akynamy não bebe mais a água do rio e prefere tomar banho no chuveiro alimentado por um poço, mesmo com o Alalaú correndo em frente à sua aldeia. “Tenho medo de banhar no rio, está poluído e sujo”, lamenta a anciã. O relato é cada vez mais comum entre os kinja, como se autodenominam os indígenas do território Waimiri Atroari, entre o Amazonas e Roraima. Eles são vizinhos da Mineração Taboca, responsável por uma das maiores jazidas a céu aberto do país. A empresa atua desde 1982 em Presidente Figueiredo (AM) e hoje é a maior produtora de estanho refinado do Brasil — metal que chega até as cadeias produtivas de gigantes da indústria automobilística, como a Toyota e a Tesla.O receio de Akynamy não é à toa. Um igarapé que alimenta o Alalaú, principal rio da terra indígena, estaria contaminado por chumbo e arsênio, entre outras substâncias perigosas, segundo um relatório de agosto de 2025 com análises químicas da água encaminhado pela Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) ao MPF (Ministério Público Federal) no Amazonas.

Produzido pela startup de biotecnologia Aqua Viridi, o laudo afirma que a presença de metais na água e nos sedimentos do rio representa uma “ameaça imediata” aos indígenas e ao meio ambiente. O documento foi acessado em primeira mão pela Repórter Brasil — a apuração foi realizada com apoio da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center. Os resultados fizeram o MPF retomar uma investigação que se arrasta há cinco anos sobre a possível relação entre a atividade minerária e a contaminação na terra indígena. “As informações enviadas pela Funai  demonstram que há um efetivo impacto no território”, afirma Fernando Merloto Soave, procurador do MPF lotado em Manaus.Os kinja convivem há mais de quatro décadas com a devastação do seu território. O temor agora é de que os riscos se espalhem: uma nova corrida mineral se instala na Amazônia em razão da transição energética, aumentando a pressão sobre os Waimiri Atroari, cuja população quase foi dizimada na década de 1970, durante a construção da BR 174.

A Mineração Taboca aposta na exploração de cassiterita (matéria-prima do estanho) tântalo, nióbio e estuda extrair elementos de terras raras. Esses minerais têm despertado cada vez mais interesse das indústrias bélica e de tecnologia no mundo todo — tanto que, em 2024, a mineradora foi comprada pela Chi

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