Luto e fome: viúva tenta se reerguer após operação mais letal do Rio

A mulher fotografada enquanto fechava os olhos do cadáver do marido em meio a uma fila de corpos tem um nome: Fernanda da Silva Martins.

A imagem do repórter fotográfico da Agência Brasil Tomaz Silva com o pranto da viúva, de 35 anos, rodou o mundo e foi republicada em jornais e sites do país e do exterior para retratar a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro. 

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O confronto teve reflexos em toda a cidade se estendeu madrugada adentro na Serra da Misericórdia, região desabitada entre os complexos do Alemão e da Penha, onde familiares de mortos e ativistas de direitos humanos denunciam ter havido sinais de execução.

Já autoridades policiais alegaram, na época, que os mortos eram criminosos que reagiram e atentaram contra a vida de seus agentes. Para o governador Cláudio Castro, a incursão foi um sucesso.

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Depois da ação, moradores do Complexo da Penha retiraram cerca de 80 corpos de pessoas mortas de uma área de mata e os enfileiraram em uma rua na Vila Cruzeiro, onde permaneceram por horas, diante de vizinhos e familiares, até que fossem encaminhados ao Instituto Médico-Legal, no centro da cidade.

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Por respeito à condição de Fernanda, no momento da foto, a Agência Brasil preferiu evitar abordar parentes das vítimas, seguindo a política editorial da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Passados três meses, a reportagem a reencontrou na comunidade do Complexo do Alemão onde mora com dois dos quatro filhos, de 11 e 8 anos. 

A imagem dela feita pela Agência Brasil retrata seu maior momento de luto, afirma. Apesar das condições em que foi fotografada, ela disse que “sua dor ganhou importância” com a repercussão. 

“Ali, sentiram a minha dor. Muita gente [me] crucificou, mas outras me ligaram, se comoveram. A foto foi de um sentimento muito real”, avaliou.

Fernanda da Silva Martins durante entrevista à Agência Brasil, no Complexo da Penha, na zona norte

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